SERMÕES DE JOHN WESLEY
(1703 – 1791)

ADVERTÊNCIA CONTRA O SECTARISMO

“Disse-lhe João: Mestre, vimos um homem que não nos segue, expelir demônios em teu nome e lho proibimos, porque não nos seguia. Mas Jesus respondeu: Não lho proibais.”
(Marcos 9.38, 39)
1. Lemos nos precedentes versículos que, após terem estado os doze em disputa sobre “qual deles seria o maior, Jesus, tomando um menino, disse-lhes: Aquele que receber um destes meninos em meu nome, a mim é que recebe; e aquele que me recebe, não me recebe a mim” somente, “mas Aquele que me enviou”. Então “João respondeu”, isto é, disse, em referência ao que nosso Senhor acabava de ensinar: “Mestre, vimos um homem que não nos segue, expelir demônios em teu nome, e lho proibimos, porque ele não nos seguia”. É como se ele houvesse dito: “Devíamos tê-lo recebido? Recebendo-o, teríamos recebido a ti? Não devíamos antes tê-lo impedido? Fizemos bem nisso?” “Mas Jesus disse: Não lho proibais.”
2. A mesma passagem é repetida por S. Lucas, quase nas mesmas palavras. Pode-se, porém, perguntar: “Que tem isso conosco, uma vez que no presente ninguém expulsa demônios? O poder de fazer isto não foi retirado à Igreja há doze ou catorze séculos? Como, então, nos interessa o caso aí recordado, ou a decisão de nosso Senhor no tocante a ele?”
3. Talvez mais de perto do que se imagina comumente, visto que o caso proposto não é invulgar. Para que possamos retirar dele toda vantagem, pretendo mostrar, primeiro, em que sentido os homens podem agora expelir demônios, e de fato os expelem; segundo, o que devemos entender pela expressão: “Ele não nos segue”. Explanarei, em terceiro lugar, o preceito de nosso Senhor: “Não lho proibais”, concluindo com uma inferência tirada do conjunto.


I


1. Quero mostrar, primeiro, em que sentido os homens podem agora expelir demônios, e de fato os expelem. Para que se tenha um conceito claro no tocante a este assunto, lembrarei que, (segundo o registro bíblico), como Deus vive e opera nos filhos da luz, o diabo vive e opera nos filhos das trevas. Como o Espírito Santo possui a alma dos bons, assim o espírito mau possui a alma dos ímpios. Daí lhe chamar o apóstolo “o deus deste mundo”, dado o poder soberano que tem sobre os homens do mundo. Daí resulta que nossobendito Senhor o designa como “o príncipe deste mundo”, tão absoluto é seu domínio sobre o mundo. E daí afirmar S. João: “Sabemos que somos de Deus e” todos os que não são de Deus, “todo o mundo” en tw ponhrw keitai, não - está posto na maldade, mas “está posto no maligno”; vive e move-se nele, como os que não são do mundo vivem e movem-se em Deus.
2. Porque o diabo não é para considerar-se apenas como “um leão rugindo em torno e procurando” a quem possa tragar”; não meramente como um inimigo sutil, que se lança de improviso sobre as pobres almas e”leva-as cativas à sua vontade”, mas como o que nelas habita e nelas anda, que governa as trevas ou a maldade deste mundo (dos homens do mundo e todos os seus tenebrosos desígnios e ações), tomando posse de seus corações, ali estabelecendo seu trono e reduzindo todo pensamento à sujeição. Assim, o “forte homem armado guarda sua casa”; e esse “espírito imundo” algumas vezes “sai do homem”, com freqüência volta com “sete espíritos piores do que ele próprio, e entram, e habitam ali”. Nem pode ele ficar ocioso em SUa habitação. Está continuamente “operando” nesses “filhos da desobediência”. Neles opera com poder, com poderosa energia, transformando-os à sua própria semelhança, apagando todos os vestígios restantes da imagem de Deus e preparando-os para toda palavra e obra má.
3. É pois, uma verdade inquestionável, que o deus e príncipe deste mundo ainda possui a todos que. não conhecem a Deus. Somente a maneira pela qual ele agora os possui difere do processo dos tempos antigos. Então, com freqüência lhes atormentava o corpo assim como a alma, e isto abertamente, sem qualquer disfarce; agora ele lhes atormenta apenas a alma (salvo raras exceções), e fá-lo tão veladamente quanto possível. É clara a razão de semelhante diferença: seu objetivo era então levar a humanidade à superstição; por isso operava tão abertamente quanto podia. Agora, porém, seu objetivo é induzir-nos à infidelidade; por isso age tão cautelosamente quanto pode: quanto mais disfarçado se apresente, mais avassalador se torna.
4. Se dermos crédito aos historiadores, há regiões, ainda agora, onde o diabo opera tão abertamente como nos velhos tempos. “Mas, por que isto se dá somente em terras selvagens e bárbaras? Por que não na Itália, na França, ou na Inglaterra?” Por uma razão muito simples: ele conhece seus homens e sabe o que tem a fazer com cada um deles. Aos lapõnios aparece desmascarado, porque seu objetivo é confirmá-los na superstição e na idolatria grosseira. Convosco seu propósito é diverso: deseja transformar-vos em vosso próprio í.dolo; fazer-vos mais sábios
a vossos próprios olhos do que o próprio Deus, do que todos os Oráculos de Deus. Ora, para conseguir isto, ele não deve aparecer em sua própria figura: tal conduta lhe frustraria os desígnios. Não: usa de toda sua arte para fazervos negar sua existência, até que vos apanhe despreocupados e a seu inteiro alcance.
5. Ele reina, pois, embora de modos diferentes, mas em caráter absoluto, tanto numa como noutra terra. Tem o alegre italiano incrédulo tão preso a seus dentes como O tártaro asselvajado. Mas ao que dorme profundamente na cova do leão, este é bastante prudente para o não despertar. Hoje o diabo somente brinca com o adormecido; quando lhe apraz, engole-o de uma vez.
O deus deste mundo colhe seus adora dores ingleses tão descuidados como os da Lapõnia. Mas não é de seu “interesse afligi-los, para que não aconteça que eles voem para o Deus do céu. O príncipe das trevas não aparece, conquanto reine sobre esses submissos filhos seus. O dominador concede a seus cativos a maior segurança, porque eles acreditam estar em liberdade. Assim, “o forte homem armado guarda sua casa, e seus bens estão seguros”; nem o teista, nem o cristão nominal suspeita de sua presença ali: deste modo, o dominador e os cativos vivem entre si na melhor harmonia.
6. Durante todo esse tempo o diabo opera nos possessos com energia. Cega-lhes os olhos do entendimento, de modo que a luz do glorioso Evangelho de Cristo não possa brilhar sobre eles. Acorrenta-lhes a alma à terra e ao inferno, com. cadeias forjadas pelas suas próprias afeições vis. Prende-os à terra pelo amor ao mundo, pelo amor ao dinheiro, ao prazer, à lisonja. E por orgulho, inveja, ira, ódio, vingança, leva sua alma à borda do inferno, agindo mais segura e impunemente, porque os homens não sabem que o diabo esteja agindo.
7. Quão facilmente podemos conhecer a causa por seus efeitos! Estes algumas vezes são grosseiros e palpáveis. Assim são eles nas mais”brilhantes nações pagãs. Não é necessário ir mais longe do que aos admirados, virtuosos romanos: acha-los-eis, quando no pináculo de sua erudição e de sua glória, “cheios de toda a injustiça, malícia, avareza e maldade; cheios de inveja, homicídio, contenda, dolo e malignidade; detratores, difamadores, aborrecíveis a Deus, insolentes, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes aos pais, insensatos, pérfidos, sem afeição natural e sem misericórdia”.
8. As partes mais fortes desta descrição são confirmadas por alguém que alguns julgam ser a testemunha mais insuspeita. Quero referir-me a seu irmão de paganismo, Dion Cassius, o qual observa que, antes que César voltasse da Gália, não só a glutonaria e a devassidão de toda espécie se praticavam aberta e escancaradamente; não só a falsidade, a injustiça e a crueldade dominavam tanto nos tribunais como no seio das famílias; mas os latrocínios mais ultrajantes, a rapinagem e os homicídios eram tão freqüentes em todos os recantos de Roma, que poucos homens saíam de casa sem fazer as disposições de última vontade, não sabendo se voltariam vivos!
9. Igualmente grosseiras e palpáveis são as obras do diabo entre muitos (senão na totalidade), dos pagãos
modernos. A religião natural dos Creeks, Cherokees, Chickasaws e todos os outros índios que vagueiam pelos nossos territórios do sul, (não uns poucos homens, mas nações inteiras), é esta: torturam todos os seus prisioneiros, da manhã à noite, queimando-os afinal até que morram; e à mais leve ofensa involuntária, vêm pelas costas e atiram no próprio companheiro! Sim, é comum entre eles fazer o filho saltar os miolos ao próprio pai, se julga que este vive demasiadamente; e, quanto às mães, se estão enfadadas com os filhos, atam-lhes pedras ao pescoço e lançam-nos, três ou quatro deles, ao rio, um após outro!
10. Seria desejável que ninguém, exceto os pagãos, praticasse tais obras grosseiras, palpáveis, do diabo. Mas não ousamos dizê-la. Mesmo em crueldade e derramamento de sangue, quão pouco estão os cristãos aquém daqueles! Não foram só os espanhóis ou portugueses, massacrando milhares na América do Sul; não só os holandeses, nas Índias Orientais, ou os franceses na América do Norte, seguindo passo a passo os espanhóis: também nossos compatriotas têm brincado com o sangue, exterminando nações inteiras, com isto provando eloqüentemente qual o espírito que habita e opera nos filhos da desobediência.
11. Aqueles monstros quase nos fariam fechar Os olhos às obras do diabo que se praticam em nosso país. Mas, ai! não podemos abrir os olhos mesmo aqui, sem que as vejamos por todos os lados. Será pequena prova de seu poder o fato de os perjuros contumazes, ébrios, devassos, adúlteros, ladrões, salteadores, sodomitas, assassinos, serem ainda achados por todos os recantos de nossa terra? Como deve o príncipe deste mundo reinar triunfalmente sobre todos esses filhos da desobediência!
12. Menos abertamente, mas não menos eficientemente, o diabo opera nos dissimulados, maledicentes, mentirosos, difamadores; nos opressores e concussionários; nos perjuros, vendedores de seus amigos, de sua honra, de sua consciência, de sua pátria. E esses ainda falam de religião e consciência; de honra, virtude e espírito público! Mas não podem enganar mais a Satanás do que a Deus. Aquele do mesmo modo conhece os que são seus: e ele tem, hoje, sobre uma grande multidão, recrutada de todas as nações e povos, pleno domínio.
13. Se considerardes isto, não podeis deixar de ver em que sentido os homens podem ainda agora expelir
demônios: e todo ministro de Cristo os expele, se em suas mãos prospera a obra do Senhor. Pelo poder de Deus a cuidar de sua obra, o ministro traz os pecadores ao arrependimento: inteira mudança se opera, tanto no seu interior como no exterior, pensando de todo o mal para todo. o bem. E isto é, em sentido profundo, expelir os demônios das almas em que eles tinham até então habitado. O forte não pode por mais tempo guardar sua casa. Um mais forte caiu sobre ele e o expulsou, e dela tomou posse para si mesmo, e dela fez uma habitação de Deus pelo Espírito. Aí, pois, termina o poder de Satanás e o Filho de Deus “destrói as obras do diabo”. O entendimento do pecador -agora se ilumina e seu coração docemente pende para Deus. Seus desejos se apuram, suas afeições se purificam e, cheio do Espírito Santo, cresce em graça, até ser não apenas santo no coração, mas em toda maneira de conversação.
14. Tudo isso é, na verdade, obra de Deus. Só Deus pode expelir Satanás. Mas geralmente é de seu agrado fazer isso por meio do homem, como instrumento em suas mãos, o qual diz então expelir os demônios em seu nome, por seu poder e autoridade. E Ele envia a quem queira enviar para essa grande obra, mas usualmente do modo por que o homem Jamais havia pensando, porque “seus caminhos não são como os nossos caminhos, nem seus pensamentos como os “nossos pensamentos”. Escolhe, portanto, o fraco para confundir o forte; o insensato para confundir o sábio, pela simples razão de poder reservar a glória para si mesmo, para que “nenhuma carne se glorie em sua presença”.


II


1. Mas podemos nós impedir a alguém que assim “expulsa os demônios”, se “ele não nos segue”? Esse era, parece, tanto o juízo como a prática do apóstolo, até que este referiu o caso a seu Senhor. “Nós lho proibimos”, disse ele, “porque não nos segue”, o que supunha ser razão suficiente. Que devemos enten-der pela expressão: “Ele não nos segue”? Este é o ponto que consideraremos a seguir. A circunstância mais radical que podemos admitir à vista daquela expressão, é que - ele não tem ligação conosco. Não trabalhamos lado a lado. Ele não é nosso cooperador no Evangelho. E, na verdade, desde que seja do agrado de nosso Senhor enviar muitos trabalhadores para a sua seara, nem todos podem agir na dependência uns dos outros, ou entre si relacionados. Nem podem todos eles ter relações pessoais entre si, nem tão pouco se conhecer uns aos outros. Muitos estarão necessariamente em partes diversas da seara, tão fora das Possibilidades de se relacionarem, que uns aos outros serão tão estranhos como se houvessem existido em diferentes eras. E em referência a qualquer daqueles a quem não conhecemos, podemos
dizer sem dúvida alguma: “Ele não nos segue”.
2. O segundo significado dessa expressão pode ser: Ele não é de nosso partido. Tem sido por muito tempo objeto de triste consideração, por parte de todo o que ora pela paz de Jerusalém, o fato de tantos partidos ainda subsistirem entre os que são chamados cristãos. Isso tem sido particularmente observado entre nossos próprios conterrâneos, que se têm constantemente separado uns dos outros em pontos destituídos de importância e, muitas vezes, em pontos que nenhuma relação têm com a religião. As circunstâncias mais banais têm dado lugar a diferentes partidos, que continuam por muitas gerações - e cada partidário estará pronto a dizer acerca de outro que pertença ao lado oposto: “Ele não nos segue”.
3. Aquela expressão pode vir a ser, em terceiro lugar: Ele difere de nós nas opiniões religiosas. Tempo houve em que os cristãos possuíam uma só mente e um só coração - tão grande graça repousava sobre todos eles, quando foram inicialmente cheios do Espírito Santo! Quão pouco durou, entretanto, essa bênção! Como se quebrou depressa aquela unanimidade! E diferenças de opinião brotaram de novo, mesmo no seio da Igreja de Cristo, e isto se deu não apenas em relação a cristãos nominais, mas em se tratando mesmo de reais cristãos; sim, e dos principais dentre eles - os próprios apóstolos! Nem parece que a divergência que primeiro se levantou fosse jamais conciliada inteiramente. Não verificamos que mesmo as colunas do templo de Deus, enquanto permaneceram sobre a terra, fossem levados a ter o mesmo pensamento, a ter uma só mente, com especialidade acerca da lei cerimonial. Não há, pois, lugar para admirar-se de que infinitas variedades de opinião agora se encontrem na Igreja cristã. Uma conseqüência mui possível disso é que, ao vermos certo homem “expelindo demônios”, seja o tal
alguém que, nesse sentido, “não nos segue”, isto é, não é de nossa opinião. É difícil imaginar que ele tenha a nossa mentalidade em todos os pontos, mesmo em religião. Mui provavelmente deve ele pensar de modo, diferente, mesmo em vários assuntos de importância, como da natureza e utilidade da lei moral, dos eternos decretos de Deus, da suficiência e eficácia de sua graça e da perseverança de seus filhos.
4. Ele pode diferir de nós, em quarto lugar, não só em opinião, mas igualmente em algum ponto de prática. Pode não aprovar a maneira de prestar culto a Deus observada em nossa congregação; e pode julgar ser mais proveitoso à sua alma a forma que decorre de Calvino ou de Martinho Lutera. Pode ter muitas objeções à liturgia que colocamos acima de todas as outras; pode ter muitas dúvidas no tocante à forma de governo de igreja que julgamos ser apostólica e bíblica. . Talvez possa ele separar-se ainda mais de nós: pode, por um princípio de consciência, abster-se de várias das ordenanças que acreditamos serem ordenanças de Cristo. Ou, se ambos concordamos em que elas sejam dispostas por Deus, pode ainda permanecer alguma diferença entre nós, seja nó modo de administrar aquelas ordenanças, seja no tocante às pessoas a quem devam ser ministradas. Ora, a inevitável conseqüência de qualquer dessas diferenças será que, o que assim difere de nós, de nós se separe, em razão daqueles pontos, apartando-se de nossa sociedade. Neste sentido, portanto, ,”ele não nos segue”: não é, (como nos expressamos), “de nossa igreja”.
5. Num sentido muito mais forte, “não nos segue” aquele que, não somente é de uma igreja diferente, mas de uma igreja que acreditamos ser, a muitos respeitos, antibíblica e anticristã; uma igreja que acreditamos ser tão profundamente falsa e errada em sua doutrina, como perigosamente errada em sua prática; culpada de superstição grosseira e idolatria; uma igreja que adicionou muitos artigos à fé que foi uma vez entregue aos santos que Suprimiu todo um mandamento de Deus e invalidou vários dentre os restantes, por causa de suas tradições; e que, pretendendo professar a mais elevada veneração à igreja antiga, e a mais estrita conformidade com esta, recaiu, todavia, em enumeráveis inovações, sem qualquer apoio da antigüidade ou da Escritura. Ora, mui certamente “não nos segue” o que fica a tão grande distância de nós.
6. E pode haver diferenças ainda maiores do que essas. O que difere de nós em opinião ou em prática, pode possivelmente estar a maior distância de nós em afeição do que em conceito doutrinário. Este é, na verdade, um efeito mui natural e mui comum. A diferença que começa em pontos de opinião raramente termina aí. As diferenças geralmente se infiltram nas afeições e separam então os grandes amigos. Nem há animosidades tão profundas e irreconciliáveis como as que procedem da discordância em religião. Por esta causa os mais encarniçados inimigos do homem são os de Sua própria casa. Por essa causa o pai se levanta contra seus próprios filhos e os filhos contra seu pai; e talvez uns aos outros se persigam até a morte, pensando que, procedendo assim, estão prestando serviço a Deus. Nada há, portanto, que exceda ao que poderíamos esperar, se os que diferem de nós, seja em opiniões religiosas, seja em prática, logo se tornem acerbos e amargos; tornem-se cada vez mais prevenidos, formando mau juízo tanto de nossa pessoa como de nossos princípios. Uma conseqüência quase necessária disso será que falem assim como pensam. Colocar-se-ão em oposição a nós e. na medida de suas capacidades, embaraçarão nosso trabalho, visto que lhes não parece ser esse trabalho uma obra de Deus, mas do homem ou do diabo. O que pensa, fala ou age de modo tal como esse, no mais alto sentido - “não nos segue”.
7. Não concebo, entretanto, que a pessoa de quem o apóstolo fala no texto (embora não tenhamos detalhes
particulares sobre ela, nem no contexto, nem em qualquer outra parte dos Sagrados Escritos), tenha chegado a tal ponto. Não temos funda-mento para supor que houvesse qualquer diferença material entre ela e os apóstolos; muito menos que nutrisse qualquer preconceito” contra eles ou contra seu Mestre. Parece que podemos inferir muita coisa das palavras de nosso Senhor que se seguem imediatamente ao texto: “Ninguém há que faça milagre em meu nome e possa dizer mal de mim”. Mui de propósito coloco o caso em luz mais forte, aduzindo todas as circunstâncias que bem possam ser concebidas, para que, prevenidos contra a tentação em sua maior força, em caso algum cedamos” a ela, combatendo contra Deus.


III


1. Suponha-se, então, que certo homem não tenha relação conosco; suponha-se que não seja de nosso partido; suponha-se esteja separado de nossa igreja, sim, e diferindo largamente de nós, tanto em conceito, como em prática e sentimento. Ainda assim, se virmos esse homem “expelindo demônios”, Jesus diz: “Não lho proibais”. Tenciono explanar, em terceiro lugar, este importante conselho de nosso Senhor.
2. Se virmos esse homem expulsando demônios. Mas, bom será se, mesmo neste caso, crermos no que vemos com nossos próprios olhos, se não desmentirmos nossos próprios sentidos. Seria escassamente consentâneo com a natureza humana o que imediatamente não percebesse quão extremamente indispostos somos para crer que algum homem que “não nos segue”, em todos ou na maior parte dos sentidos acima referidos, possa expelir demônios. Quase teria dito – em cada um desses sentidos, uma vez que aprendemos claramente do que se” passa em nosso próprio coração quanto repugna aos homens reconhecer qualquer mérito nos que com eles não concordam em todos os pontos.
3. “Mas, qual é a prova suficiente, razoável, de que o homem (no sentido acima) expulse demônios?” :m fácil a resposta. Há prova cabal (1) de que a pessoa que temos diante de nós era um rude, ostensivo pecador? (2) Ela não é mais assim? Rompeu com seus pecados e vive agora uma vida cristã? E, (3) Essa mudança se operou, ouvindo aquele homem pregar? Se estes três pontos são claros e inegáveis, então tendes prova suficiente e racional, tal que não podeis recusar sem pecado voluntário, de que aquele homem expulsa demônios.
4. Então, “não lho proibais”. Guardai-vos de o embaraçar, seja pelo uso “de vossa autoridade, seja por argumentos ou persuasão. Não tenteis por modo algum impedir que ele use de todo o poder que Deus lhe concedeu. Se tendes autoridade sobre ele, não useis de semelhantes prerrogativas para entravar a obra de Deus. Não o enchais de razões pelas quais não deva mais falar no nome de Jesus. Satanás não deixará de enchê-lo de tais razões, mesmo que o não secundeis nessa obra. Não o convençais a separar-se de seu trabalho. Se ele der lugar ao diabo e a vós, muitas almas poderão perecer em sua iniqüidade; mas seu sangue Deus o requererá de vossas mãos.
5. Mas, se o que expulsa demônios forapenas um leigo! não devo, então, proibir-lhe?” O fato foi comprovado? Há prova concludente de que esse homem expulsou ou expulsa demônios? Se há, “não lho proíbas”“, não, para que tua alma não corra perigo. Não pode Deus operar por meio de quem quer que seja de sua vontade operar? Ninguém pode fazer essas obras a não ser que Deus esteja com ele, a não ser que Deus o tenha enviado exatamente para isso. Mas, se Deus o enviou, queres tu chamá-lo para trás? Queres proibir-lhe de ir?
6. “Não sei, entretanto, se ele foi enviado por Deus”. “Agora, nisto há uma coisa maravilhosa” (pode dizer um dos selos de seu apostolado, alguém que tenha sido arrebatado do domínio de Satanás para o de Deus), O que não saibas de onde é esse homem, e eis que ele me abriu os olhos! Se esse homem não tosse de Deus, nada  poderia fazer”. Se duvidas do fato, manda chamar seus pais: manda chamar seus irmãos, amigos, conhecidos. Mas, se não podes duvidar disto”, precisas reconhecer O que um milagre notável se operou; então, com que consciência, com que cara podes impor ao que Deus enviou que “não fale mais em seu nome”?
7. Concordo em que seja altamente aconselhável que, quem quer que pregue em nome de Cristo, tenha tanto a vocação interna como a vocação externa; mas, que esta seja absolutamente necessária, eu o negou demais, a Escritura não é terminante? Ninguém tome esta honra para si mesmo,  mas o que seja chamado por Deus, como foi Aarão” (Hb 5.4). Por vezes incontáveis este texto se tem citado a este propósito, como encerrando a própria força do argumento; mas, seguramente, não houve jamais citação mais infeliz. Porque, primeiro, Aarão não foi de modo nenhum chamado para pregar: foi chamado para “oferecer dons e sacrifícios pelo pecado”. ESte era seu oficio particular. Em segundo lugar, aqueles homens não oferecem sacrifício algum, mas somente pregam” o que. Aarão não fez. Por isso, não é possível que se encontre em toda a Bíblia texto mais vazio de préstimo, para o caso em debate, do que esse.
8. “Mas, qual era a prática da era apostólica?” Podeis facilmente ver qual fosse ela nos Atos dos Apóstolos. No capitulo oito lemos: “Naquele dia levantou-se uma grande perseguição contra a igreja em Jerusalém e todos, exceto os apóstolos, foram dispersas pelas regiões da Judéia e Samaria.” (versículo 1) “Os que, porém, haviam sido dispersos, iam por toda a parte pregando a Palavra.” (versículo 4) Ora, foram todos esses exteriormente chamados a pregar? Homem algum, no gozo de suas faculdades mentais, pode pensar assim. Ai está, portanto, uma prova irrecusável de qual fosse a prática na era apostólica. Vemos ai” não um, mas uma multidão de pregadores leigos, homens que somente foram enviados por Deus.
9. Na verdade, tão longe está a prática da era apostólica de inclinar-nos a pensar fosse ilegal que o homem
pregasse antes de ser ordenado, que temos razões de pensar que isso era então Julgado necessário. Certamente que a prática e o conselho do apóstolo Paulo eram no sentido de provar o homem antes que fosse ordenado. “Aqueles” (os diáconos) “sejam primeiro provados; depois exerçam o oficio de diácono” (1Tm 3.10). Provados de que modo? Exigindo-se que compusessem uma sentença em grego e respondessem a umas tantas perguntas triviais? Oh! Admirável prova de um ministro de Deus! Não; mas fazendo “uma clara, aberta experiência (como ainda se faz na maior parte das igrejas protestantes da Europa), não somente de sua vida santa e irrepreensível, mas acerca da posse de certos dons que são absoluta e indispensavelmente necessários à edificação da Igreja de Cristo.
10. Que se há de fazer, todavia, se o homem possui esses dons, tem trazido pecadores ao arrependimento, e, ainda assim o bispo não quer ordená-lo? Então o bispo proíbe-lhe de expelir demônios. Mas eu não cuido de lho proibir: minhas razões eu as publiquei no mundo todo. Se ainda se insiste, devo publicá-la de novo. Tu que insistes nesse ponto, responde àquelas razões. Não sei de alguém que ainda o tenha feito ou tentado fazê-la. Somente alguns têm falado dessas razões como fracas e fúteis – e isto era de notável prudência, porque é mais fácil desprezar um argumento, ou afetar desprezá-la, do que dar-lhe resposta. Até que isto se faça, devo dizer: quando tenho prova convincente de que qualquer homem expele demônios, seja o que for que os outros façam, não penso em proibirlho, para que não seja encontrado a combater contra Deus.
11. Quem quer que sejas que temes a Deus, “não lho proibas”, nem direta, nem indiretamente. Muitos meios há de o fazer. Indiretamente lho proibas, se negas abertamente, ou desprezas, ou tratas com descaso a obra que Deus opera por suas mãos. Indiretamente lho proíbes, quando o desanimas em sua obra, enredando-o em disputas no tocante a esse trabalho, levantando objeções contra ele, ou atemorizando-o com conseqüências que mui possivelmente jamais se verificarão. Tu lho proíbes quando demonstras qualquer malquerença para com ele, seja em palavras ou em atitudes; e muito mais quando a ele te referes, conversando, de modo desagradável e desprezível; quando intentas representá-lo de forma odiosa ou depreciativa. Tu lho proíbes quando dele dizes mal ou não dás apreço a seus labores. Oh! Não lho proíbas por qualquer desses processos, nem proíbas aos outros de o ouvirem - desviando os pecadores” da audição da Palavra que é apta para lhes salvar as almas!
12. Sim, se queres observar o preceito de nosso Senhor em sua plena significação, em todo seu alcance, lembra-te de sua palavra: “O que não é por nós é contra nós; e aquele que não se ajunta comigo, desgarra-se”: aquele que não congrega os homens no reino dos céus, certamente que os afasta desse reino. Não pode haver neutralidade nessa guerra. Cada um estará do lado de Deus ou do lado de Satanás. Estás do lado de Deus? Então, não só não proibirás a qualquer homem de expulsar demônios, mas tu mesmo trabalharás com o máximo de tuas energias por secundálo na obra. Prontamente reconhecerás a obra de Deus e proclamarás sua magnitude. Removerás de seu caminho, tanto quanto puderes, todas as dificuldades e objeções. Fortalecerás suas mãos, dele falando de modo honroso em face dos homens e divulgando as coisas que viste e ouviste. Encorajarás aos que acorrem à sua palavra, para que
ouçam ao que Deus enviou. Não omitirás nenhuma prova de terno amor, em nenhuma ocasião que Deus te abra para demonstrar-lha


IV


1. Se voluntariamente falharmos em algum desses pontos; se direta ou indiretamente lho proibirmos porque “ele não nos segue”, então somos sectários. Esta é a inferência que tiro do que foi exposto. Temo, porém, que ° termo “sectarismo”, usado tão freqüentemente como é, seja quase tão pouco entendido como a palavra “entusiasmo”. Sectarismo é o demasiado apego, o zelo excessivo no tocante ao nosso partido, opinião, igreja e religião. Assim, é sectário o que tão loucamente se aferra a qualquer daquelas coisas, tão fortemente se acorrenta a elas, que proíbe aos que expelem demônios, simplesmente porque diferem em qualquer daquelas particularidades.
2. Guarda-te disto. Toma cuidado, (1) em não te convenceres de sectarismo, pela tua Indisposição em crer que algum homem expulsa demônios, embora discorde de ti. Se estás livre disto e se reconheces o fato, então examinate a ti mesmo: (2) Não estou incurso em sectarismo n.este ponto, proibindo-lhe direta ou indiretamente? Não lho proíbo diretamente, neste assunto, porque ele não é de meu partido? Porque suas opiniões não coincidem com as minhas? Ou parque ele não presta culto a Deus de acordo com a liturgia religiosa que recebi de meus pais? 3. Examina-te a ti mesmo: não lho proíbo, pelo menos indiretamente, por qualquer daqueles motivos? Não me sinto desapontado pelo fato de Deus assim abençoar a um homem, dele se utilizando, embora sustente opiniões tão errôneas? Não o desanimo, porque não é de minha igreja, com ele discutindo acerca desta circunstância, levantando objeções e impressionando-lhe o espírito à. custa de conseqüências distantes? Não demonstro rancor, ciúme, indisposição de qualquer espécie, quer em minhas palavras, quer em minhas atitudes? Não menciono em sua ausência suas faltas (reais ou imaginárias), seus defeitos Ou fraquezas? Não impeço os pecadores de ouvir sua palavra? Se fazes qualquer dessas  coisas, és no presente um sectário.
4. “Busca-me, ó Senhor, e prova-me. Experimenta meus rins e meu coração! Vê bem ,se não há qualquer caminho” de sectarismo “em mim, e leva-me pelas veredas eternas”. Para que nos examinemos mais profundamente, proponhamos a questão de modo mais incisivo: que faria, se eu visse um papista, um ariano, ou sociniano, expelindo demônios? Se o visse, não poderia proibir ao que o fizesse, sob pena de me achar incurso em sectarismo. Ainda mais: se eu pudesse imaginar que me fosse dado ver um judeu, um teísta ou um muçulmano fazendo a. mesma coisa, se eu lho proibisse direta ou indiretamente, ainda não seria mais do que um sectário.
5. Oh! Permanece firme neste ponto! Não te contentes em não proibir a qualquer que expulse demônios. É bom que chegues até este ponto, mas não te detenhas aí. Se queres evitar todo sectarismo, vai além: Em cada exemplo dessa espécie, qualquer que seja o instrumento, reconhece o dedo de Deus, E não somente reconhece-o, mas regozijai-te em sua obra e louva seu nome com ações de graças. Anima a quem quer que seja que Deus se compraza em empregar, para que ele se entregue totalmente à tarefa. Onde quer que estiveres, fala bem desse homem; defende seu caráter e sua missão. Alarga, tanto quanto possas, seu campo de ação; mostra-lhe todo agrado em palavras e em obras; e não te canses de rogar a Deus em seu favor, para que o Senhor salve tanto a ele próprio como a seus ouvintes.
6. Não tenho necessidade de acrescentar senão uma só recomendação: não penses que o sectarismo dos outros seja desculpa para o teu. Não é impossível que alguém, que expulse demônios, pretenda proibir-te de também o fazeres. Observa que este é justamente o caso mencionado no texto. Os apóstolos proibiram a outrem de fazer o que eles faziam. Guarda-te, porém, da retribuição. Não é teu papel retribuir o mal com o mal. A não observância da parte dos outros, do preceito de nosso Senhor, não é razão para que o negligencies. Não; mas que o outro guarde para si todo o sectarismo. Se ele te proibir, não lho proíbas. Antes trabalha, vigia e ora ainda mais para lhe confirmar teu amor. Se ele fala toda sorte de mal contra ti, dize toda sorte de bem (que seja verdadeiro), a seu respeito. Imita neste ponto o dito glorioso de um grande homem (oh! tivesse ele sempre tido o mesmo espírito!): “Que Lutero mechame de cem demônios! Ainda assim o reverencio no caráter de mensageiro de Deus !”

 John Wesley

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